ASAS ANGOLANAS SOBREVOAM KINSHASA

Há uns dias, Félix Tshisekedi, presidente da República Democrática do Congo (RDC), fez uma viagem-relâmpago a Luanda para se encontrar com o presidente João Lourenço.

Pouco tempo depois, o Estado-Maior das Forças Armadas congolesas, através do general Kasonga Cibangu, anunciava que vários aviões da Força Aérea angolana iam sobrevoar Kinshasa, a capital da RDC, inaugurando uma época de colaboração reforçada entre as Forças Armadas “irmãs” dos dois países.

E, de facto, menos de uma semana depois da reunião presidencial, encontram-se no Congo várias aeronaves angolanas. Segundo os peritos de segurança congoleses que contactámos, trata-se de três aviões caça Sukhoi SU-30K, um avião Antonov de transporte de tropas e dois helicópteros de combate Agusta AW-109.

É sem dúvida uma demonstração de força das Forças Armadas de Angola no suporte a Félix Tshisekedi.

O que se está a passar?

Não é demais lembrar que Angola tem uma fronteira superior a 2500 quilómetros com a RDC, nem recordar os laços históricos permanentes entre os dois países, sobretudo do ponto de vista bélico. Desde a revolta de 15 de Março de 1961, que foi preparada no Congo, às bases da FNLA e da UNITA, que se situavam na RDC durante a guerra de libertação, até à intervenção de tropas zairenses em Angola a seguir à independência ou às deslocações de tropas angolanas para suportar os Kabila – houve sempre uma constante interacção entre os dois países, e paulatinamente Angola tem assumido as responsabilidades de “irmão mais velho” ou estabilizador da região.

Na verdade, a paz e estabilidade na RDC e em Angola estão indelevelmente ligadas. O sossego num país depende também do outro, numa dinâmica recíproca.

Como é público, Tshisekedi assumiu a presidência da RDC em Janeiro de 2019, após um processo eleitoral conturbado, que, contudo, permitiu a transferência de poder do anterior presidente Joseph Kabila, que já era presidente da República desde o assassinato do pai, em 2001. No entanto, Kabila manteve a maioria dos deputados no poder legislativo, bem como o controlo de quase todas as alavancas do poder. Na altura da transição, várias fontes falaram de um acordo entre Tshisekedi e Kabila para garantir a governabilidade do país, em que este último seria detentor de quase todo o poder. Félix Tshisekedi seria uma espécie de projecção difusa do verdadeiro chefe do país: Joseph Kabila.

O processo histórico tem ensinado que estas dinâmicas de back-seat driver (controlador no banco de trás) raramente funcionam, e na RDC Tshisekedi depressa tentou impor a sua vontade, apoiado pelas potências ocidentais. Obviamente, Kabila nunca pretendeu abandonar o poder efectivo; portanto, o clima de tensão aumentou drasticamente no país.

Angola tem procurado ocupar uma posição moderadora e de apoio à consolidação de Tshisekedi, porque sabe que qualquer agitação mais profunda no Congo se repercute imediatamente em Cabinda, no norte do país e na zona diamantífera das Lundas.

É neste contexto que se enquadra o envio da força angolana para Kinshasa: é uma espécie de força de dissuasão preventiva. Um aviso a Kabila para não desestabilizar Tshisekedi e garantir que os processos democráticos se desenvolvem com a máxima normalidade possível.

O grande problema desta análise é o seu formalismo. Estamos a raciocinar num quadro de Estados, em que num deles existem dois contendores com ambições de conquistar o poder político. Se fosse assim, a solução seria fácil: apoiava-se Tshisekedi e derrotava-se Kabila.

No entanto, o quadro é muito mais complexo. Além de Kabila, há que atentar nos interesses do Uganda e do Ruanda, que entre si têm más relações e interferem abundantemente na RDC, criando focos de instabilidade e uma geometria variável de interesses e tensões. E, acima de tudo, cumpre compreender que a RDC é mais do que um Estado: é um tabuleiro de jogos negociais em que prepondera uma máfia regional de agentes políticos e líderes militares financiados por empresários – verdadeiros barões do dinheiro – que cooperam em diferentes eixos e se beneficiam financeiramente do substancial comércio ilícito de minerais e outros bens. Na verdade, como bem assinala Stephanie Wolters, do Instituto Sul Africano de Relações Internacionais, actualmente são interesses económicos que substituem a etnicidade e a nacionalidade nos confrontos na RDC; o motor das disputas é a motivação do lucro.

Isto quer dizer que a RDC é um verdadeiro caldeirão: que qualquer análise será forçosamente incompleta, e qualquer intervenção poderá desencadear mecanismos de resposta inesperados.

Por essas razões, a intervenção angolana na RDC tem de ser bem calibrada, e deve ter em conta os vários interesses em causa. Na verdade, deve ser uma intervenção dissuasora e não repressora, i.e., procurando evitar males maiores e mantendo o equilíbrio de forças, não tentando criar e afirmar vencedores de uma guerra sem fim e muitas vezes sem rosto.

Fonte: MakaAngola

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